
Tudo estava em sua volta, mas nada fazia parte dela. Era um sentimento desconhecido, parecia que a lua que a seguia não era a mesma que a dos outros.
Esqueceram de avisá-la que a vida não seria tão simples. Esqueceram de recomendar as vacinas para as dores existências que vez ou outra batiam em sua porta.
Esqueceram de avisá-la que nem sempre lágrimas serão contidas e fúrias desimpedidas. E ela não se perdoava por isso.
E os tropeços? Por que ninguém reparava nos cadarços desamarrados em vez de recomendar Mertiolate?
Ela tinha o hábito de andar olhando para baixo para tentar encontrar a auto-estima que se perdia.
Por que não ensinaram que Band-aid não conserta coração magoado? Ele pode até estancar por alguns minutos, mas depois de algum tempo, ele descola.
Por que ninguém notava em seus olhos que apesar de mudos, diziam tanto. Eles confabulavam entre si,contavam histórias mágicas e ninguém se permitia a entrar no conto de fadas.
Tantas coisas para serem divididas, e ela solitariamente dividia consigo. Não gostava de números ímpares, tão pouco conhecia os pares.
Foi então que pisou nos cadarços desamarrados novamente e caiu. E de tanto olhar para baixo a felicidade passou em sua frente, mas ela não notou.
*Título: Frase Clarice Lispector